Lula dá entrevista para a CNN Internacional e fala como o verdadeiro presidente do Brasil. Leia a íntegra

Em entrevista exclusiva para a jornalista Christiane Amanpour, da CNN, o ex-presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva pede ao presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, que garanta a igualdade da vacina. Segue a tradução da íntegra da matéria publicada no site da CNN Internacional.

Falando de São Paulo, Brasil, Lula disse que os EUA têm um excedente de vacinas e sugeriu que o excedente poderia ser doado a países necessitados.

"Uma sugestão que gostaria de fazer ao presidente Biden por meio de seu programa é: é muito importante convocar uma reunião do G20 com urgência", disse Lula a Amanpour.  “É importante chamar os principais líderes mundiais e colocar em volta da mesa uma só coisa, uma questão. Vacina, vacina e vacina!”

Ele acrescentou: "A responsabilidade aos líderes internacionais é tremendo, então estou pedindo ao presidente que o Presidente Biden fizer isso porque eu não posso ... Eu não acredito no meu governo. E assim, eu não poderia pedir isso para Trump, mas Biden é uma respiração pela democracia no mundo."

Na primeira entrevista de Lula desde que um juiz da Suprema Corte anulou suas condenações de corrupção e lavagem de dinheiro em 2017 na semana passada, o ex-líder também disse que não recusaria um convite para concorrer às eleições presidenciais do país no ano que vem.

“Quando chegar o momento de concorrer às eleições, e se meu partido e os demais partidos aliados entenderem que eu posso ser o candidato, e se estiver bem e minha saúde com a energia e o poder que tenho hoje, posso  Garanto que não vou negar esse convite, mas não quero falar sobre isso. Essa não é a minha principal prioridade. A minha principal prioridade agora é salvar este país ", disse Silva.

A nação sul-americana vem estabelecendo um recorde diário de mortes por vírus repetidamente nos últimos dias, conforme outra onda brutal de Covid-19 varre o país.  O ressurgimento sobrecarregou os médicos que lutam na linha de frente da pandemia, com um número crescente de hospitais em todo o país atingindo sua capacidade máxima.

Na terça-feira, a Fundação Oswaldo Cruz, do Ministério da Saúde do Brasil, classificou a atual emergência no país como "o maior colapso sanitário e hospitalar da história do Brasil".


(Lula) Da Silva, 75, foi condenado por corrupção e lavagem de dinheiro há três anos, em decorrência de uma ampla investigação sobre a estatal petrolífera Petrobras, apelidada de "Operação Lava Jato".

Mas, em uma ação surpresa na segunda-feira passada, um juiz do Supremo Tribunal brasileiro anulou suas condenações e ordenou que os casos fossem novamente processados ​​na Justiça Federal de Brasília.  Se a decisão for mantida - e se Lula não for condenado novamente antes do prazo final para a apresentação da candidatura - ele poderá, tecnicamente, se candidatar novamente e desafiar o atual presidente Jair Bolsonaro em 2022.

Choque político no horizonte?

Lula, que ajudou a fundar o Partido dos Trabalhadores, de esquerda, recusou-se amplamente a concorrer ao cargo, dizendo na quarta-feira passada que "não tem tempo para pensar na candidatura em 2022".


No entanto, o ex-presidente - mais conhecido como Lula - lançou um ataque contundente ao Bolsonaro, dizendo aos brasileiros na semana passada para não "seguirem qualquer decisão estúpida do presidente e do ministro da Saúde" e exortando as pessoas a se vacinarem.  Ele também condenou a forma como o atual governo está lidando com a pandemia, dizendo que muitas mortes pelo vírus "poderiam ter sido evitadas".

“Se tivéssemos um presidente que respeitasse a população, ele teria criado um comitê de crise para orientar a sociedade brasileira sobre o que fazer a cada semana”, acrescentou o ex-presidente.

Bolsonaro defendeu sua forma de lidar com a crise da saúde em face dos comentários de Lula, dizendo à CNN Brasil na semana passada que seu governo deu poderes às autoridades locais e argumentou que a imposição de medidas de bloqueio - o que ele se recusou a fazer - só "levaria o cidadão a  uma situação de pobreza. "

Bolsonaro havia dito anteriormente que esperava que a Suprema Corte do Brasil restaurasse as condenações de Lula e acusou seu antecessor de ter ambições em 2022.  “O ex-presidente Lula agora está iniciando sua campanha. Por não ter nada de bom para mostrar e essa é a regra [do Partido dos Trabalhadores], a campanha deles é baseada em criticar, mentir e desinformar”, afirmou.

Embora ainda faltem 18 meses para as eleições, o surto de coronavírus no Brasil provavelmente afetará os sentimentos dos eleitores.  Os índices de desaprovação do Bolsonaro atingiram o nível mais alto até agora, 54%, de acordo com os resultados da última pesquisa do instituto de pesquisas Datafolha divulgada na quarta-feira.

O Brasil tem o segundo maior número de Covid-19 no mundo com 11.603.535 casos e 282.127 mortes relacionadas ao coronavírus na terça-feira, de acordo com dados compilados pela Universidade Johns Hopkins.

Os hospitais estão lotados de casos em todo o país.  A última análise da CNN mostra que as taxas de ocupação da UTI em 25 dos 26 estados brasileiros mais o distrito federal são iguais ou superiores a 80%.  Destes, 14 estados têm taxas de ocupação de UTI iguais ou superiores a 90%, o que os coloca em risco iminente de colapso.

Na terça-feira, o governador do segundo estado mais populoso do Brasil, Minas Gerais, disse que o sistema de saúde simplesmente não poderia suportar novos pacientes.

"Não quero que Minas Gerais se transforme em um filme de terror", disse Romeu Zema em entrevista coletiva para anunciar a implementação da "fase roxa" em todo o estado, a mais restritiva do plano mineiro para lidar com a pandemia.

“Qualquer novo infectado (pessoa) pode significar mais uma morte porque o estado não tem capacidade para receber novos pacientes”, disse Zema.

Gestão de crise do Bolsonaro sob fogo

Desde o início da campanha de vacinação do Brasil em 17 de janeiro, o país administrou mais de 12,5 milhões de doses de vacina em sua população de mais de 211 milhões.  Mais de 9 milhões de pessoas receberam pelo menos uma dose, enquanto pouco mais de 3 milhões receberam uma segunda dose, de acordo com os últimos dados do ministério da saúde do país.

À medida que a disseminação do coronavírus no país ultrapassa seu lançamento de vacinação, as críticas aumentam.  De acordo com a mesma pesquisa do instituto Datafolha, que entrevistou 2.023 pessoas por telefone nos dias 15 e 16 de março, 54% dos brasileiros acharam o desempenho do Bolsonaro ruim ou péssimo - contra 48% no final de janeiro.

O relatório da pesquisa também disse que 43% dos brasileiros culpam Bolsonaro, enquanto 20% culpam os governadores de seus estados pelo atual estado da pandemia no Brasil.

Em relação à presidência do Bolsonaro, 44% dos entrevistados acham que é ruim ou péssimo, quatro pontos a mais do que na última pesquisa e o maior desde que assumiu o cargo em janeiro de 2019. Trinta por cento dos entrevistados julgam a regra de Bolsonaro  bom ou ótimo e outros 26% consideram regular.


Bolsonaro nomeou esta semana um novo ministro da saúde - o quarto em um ano - enquanto as taxas de UTI e de mortalidade disparavam.  O novo ministro, o cardiologista Marcelo Queiroga, substitui o general do Exército Eduardo Pazuello, mas há poucos sinais de mudança na abordagem do governo em relação à crise.

Na terça-feira, Queiroga em entrevista à CNN Brasil fez eco ao presidente ao dizer que os bloqueios só se aplicam em "situações extremas" e não seriam impostos pelo governo federal.

Os jornalistas Rodrigo Pedroso e Marcia Reverdosa contribuíram para esta reportagem de São Paulo, Brasil.  Caitlin Hu da CNN também contribuiu de Nova York, Matt Rivers do Rio de Janeiro e Vasco Cotovio de Londres.  Lauren Said-Moorhouse, da CNN, escreveu de Londres.

Categoria:Lula

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